7 de janeiro de 2008

O Universo te ajuda?


Existe uma frase solta no espaço que diz que basta você desejar alguma coisa que o universo conspira a seu favor. Acho que li isso em um quadrinho do Paulo Coelho - 'Maktub', saía na Folha de S. Paulo - e já vi muita gente citando isso por aí como uma forma de programação neuro-lingüística.

Já vi também pessoas dizerem que essa citação estava errada, e que a original era de Goethe e dizia assim "seja corajoso, e o universo conspirará a seu favor". Faz mais sentido, mas ainda é uma grande abobrinha.

Pois bem. Nem no Google nem na Wikiquote existem quaisquer sinais de que Goethe tenha dito algo do tipo. Nem mesmo na sessão "atribuídas erroneamente" da Wikiquote essa citação aparece, ou qualquer outra que faça referência a conspirações universais.

Considerando que Johann Wolfgang von Goethe não era exatamente um retardado mental, eu diria que ele não disse nada disso. O Universo? Conspirar a favor de alguém? Nem se eu ganhasse na Loteca 5 vezes seguidas eu poderia me dar ao luxo de acreditar em uma abobrinha dessas. Quem fala e repete esse tipo de lorota certamente nunca leu um livro de História, ou a coluna policial do jornal - ou sequer colocou a cara na janela de casa e viu o mundo real ali na esquina. Só gente louca, dessas que embrulham sementinhas de romã em dólar, é que acredita cegamente que o Universo - essa coisa indefinível, que ninguém sabe direito se é finita ou infinita - iria ajudar um reles ser humano.

Vejamos o que nosso amigo Goethe tem a dizer sobre o Universo:

"Não precisamos visitar um manicômio para encontrar mentes desordenadas; nosso planeta é o manicômio do universo." - Goethe

4 de janeiro de 2008

Eu sou tipo um milagre


Não sei quanto aos amigos leitores, mas eu tenho a péssima mania de relembrar a minha infância. Digo péssima porque, geralmente, nesse processo, eu acabo me lembrando de coisas bizarras que explicam - e muito - por que diabos eu me tornei quem eu sou hoje em dia. Algo assim como aquele livro "Minha Formação", do Joaquim Nabuco? Só que a versão punk anos 80. Deixa eu explicar melhor.

No livro do Nabuco (e toma trocadilho) ele fala coisas lânguidas e pitorescas, tais como:

"(...) poesia real, verdadeira, no alimento são, natural, pátrio; há sentimento, tradição, culto de família, religião, no prato doméstico, na fruta ou no vinho do país. A nós, do norte do Brasil, criados em engenhos de cana, o aroma que rescende das grandes caldeiras de mel nos embriaga toda a vida com a atmosfera da infância. E assim como há poesia na cozinha de cada país, há um quid de arte na cozinha ornamental, cozinha de refinamento, que se procura elevar pelo desenho e pela forma até o motivo do banquete, – e fazer história, fazer política..."

Olha, doutor Nabuco... eu tou fazendo um Bauru aqui e... vai alface??

Devia ser muito fácil ser um gênio intelectual antigamente. Você nascia rico, estudava em colégios super repressores, lia muito, não tinha televisão, não tinha chiclete, nem Playboy, nem filme de bang bang, enfim, não tinha merda nenhuma pra fazer; e aí você desperdiçava sua infância inteira com literatura, observação de pássaros, roubar frutas no pomar do alheio e ficar correndo para cima e para baixo com um carrinho de lata de goiabada ou empurrando um aro com um pedacinho de pau.

A minha infância se passou no asfalto, entre video-games, programas da Xuxa, gibis da Mônica e do Pato Donald, Comandos em Ação, Forte Apache e outras mazelas culturais. Eu destruía meus dentes com chiclete e sorvete, passava New Wave no cabelo (que caiu, obviamente) e jogava Ranca com minhas botinhas Bubblegummers.

Considerando tudo isso, eu acho um milagre que eu tenha terminado a quarta série. O que dirá entrar no doutorado.

Gostaria de, algum dia, sentar-me à sombra do jacarandá - em um majestoso notebook - e escrever as memórias de minha infância, tal qual Nabuco em sua soberana prosa... apenas com uma pitadinha da dura realidade das ruas. E do que foi ser criança naqueles pavorosos anos 80.

Difícil é ter estômago para tanto.

3 de janeiro de 2008

Feliz 2008 (se você quiser)

Eu não acredito que uma data comemorativa possa mudar a sua vida. Mas eu acredito que você, em uma data comemorativa, possa mudar a sua própria vida.

A diferença parece sutil, mas é crucial. Quando você acredita que uma data, ou que o tempo em geral, podem mudar alguma coisa, você está deixando o seu destino nas mãos do acaso, acreditando em alguma coisa abstrata qualquer (Deus, destino, etc.) que vai manipular o Universo a seu favor. Coisa de fãs de Paulo Coelho*.

Já no segundo caso, você, pessoa, pode decidir que, em determinada data, você vai fazer alguma coisa. Sem a ajuda de Jesus, dos espíritos dos seus ancestrais, ou de Urano. Você vai lá e vai agir. Tomar as rédeas da vida em suas próprias mãos e dominá-la, governá-la, decidir para onde é que ela vai.

Na verdade não é assim tão simples. A vida não é bem uma carroça, com rodas, e cavalos, num solo rígido e firme. É mais como uma prancha de surfe, deslizando muito rápida em um oceano de água líquida. Se você vai rápido o suficiente, a prancha desliza e te leva para frente em uma velocidade vertiginosa. Se você não agüenta a força da onda, ou fica com medo dela, acaba afundando na água. Pode se afogar, pode ser comido por um tubarão, ou pode apenas ficar entediado, boiando lá que nem uma folha seca.

Metáforas à parte, o fato é que em determinadas datas eu me dou ao luxo de decidir algumas coisas para a minha vida. Meu aniversário é uma dessas datas. E o reveillon é outra.

Todos os "especialistas" (no rádio e na TV eles nunca dizem especialistas em quê) dizem que, para você conseguir realizar suas promessas de ano novo, precisa ser modesto, e prometer coisas que você realmente possa realizar. O que eles querem dizer com isso é que, ao invés de prometer tudo, você deve apenas fingir que prometeu alguma coisa útil. Por exemplo, ao invés de dizer "eu vou emagrecer 100 quilos" deveria dizer "eu vou parar de comer 10 quilos de batata frita por dia e comer apenas 5".

Esse raciocínio tem fundamento, mas é muito enganador. Por que diabos você deveria fazer isso? Para não se decepcionar porque não cumpriu o que prometeu? Se você não cumpriu sua própria promessa, é porque não teve competência para tanto, ou disciplina, ou coragem, ou força de vontade. Não é culpa da sua promessa! E você não deve nunca se decepcionar consigo mesmo: apenas analisar o que deu errado, corrigir os problemas e seguir em frente.

É que nem aquelas pessoas que sempre chegam atrasadas em tudo, e aí então atrasam os relógios da casa para fingir que vão chegar na hora certa. É uma atitude ridícula, de auto-enganação, típica de quem gosta de viver em um mundinho de fantasia onde tudo é uma grande casinha da Barbie. Não dá para ir muito longe na vida se auto-enganando. Se você sempre chega atrasado, saia mais cedo de casa. Ponto final. Não adianta manipular os relógios da sua casa: você não pode manipular o tempo. Os relógios são apenas um indicador da passagem do tempo, e não as engrenagens que o fazem funcionar.

Isso vale para tudo na vida. Você não pode controlar o Universo. Ao contrário dos super-heróis - que nunca estiveram tão em moda no cinema e na TV como hoje em dia - nenhum de nós pode viajar pelo tempo, voar, controlar pensamentos ou levantar objetos apenas com o poder da mente. Somos apenas seres humanos normais, que morrem, apanham, passam fome, frio, solidão - e quem não estiver preparado para conviver com isso, que procure um psicólogo. Conheço uns ótimos.

Resumindo: minhas resoluções de ano novo foram radicais, mas até agora estão indo bem, obrigado. Não precisei sofrer por nada até agora, minha vida está melhorando aos pouquinhos, mas sinto que no próximo reveillon vou ter que inventar umas promessas muito loucas, porque as mais óbvias do mundo que eu vinha protelando há anos eu fiz todas de uma vez, e agora as estou cumprindo todas com muita alegria e dedicação.

Recomendo a todos que queiram mudar de vida que não procurem nem as drogas, nem as prostitutas, nem as grandes corporações, nem a arte: procurem dentro da sua própria cabeça. É lá dentro que a sua vida acontece. Não é em Hollywood, nem na Internet, nem no seu celular. É na terra, no ar, na água, no fogo, e na cachaça.

* O mago da ABL manipulou uma citação de Goethe com resultados desastrosos, que comentarem em breve nesse blog.

23 de dezembro de 2007

91%DRUNKARD

21 de dezembro de 2007

O Jazz e o anti-Blasé

Embora a maioria das pessoas ligue o jazz ao blasé, é sabido que a teoria mais anti-blasé da contemporaneidade foi lançada ao mundo acadêmico por um jazzista em sua colossal obra.

O niilismo, que é a desculpa esfarrapada por trás do blasé e do carão, foi definido por Nietzche, em seu livro "Ich Habe den Größten Gesicht Mutterbumser in der Welt"(1), no capítulo 3, página 49, ao declarar, resumindo sua teoria do vazio existencial: "Es bedeutet nicht eine Sache".

Trinta e cinco anos depois, um filósofo estadunidense, o Duque de Wellington*, revisa as teorias de Nietzche em seu trabalho "I´m Beginning to See the Light", complementando a afirmação do filósofo alemão: "It don´t mean a thing, if it ain´t got that swing. A-doo-wop, doo-wop doo-wop doo-wop; doo-aaahhh."(2)

A colocação de Ellington refuta a teoria de Nietzche no âmbito do carão, redefinindo o conceito do vazio existencial e da não-existencia do sentido da vida, apresentando ao leitor-pensador uma terceira via de fruição existencial. Em sua visão (e, por que não dizer, audição) ele demonstra que o vazio do universo pode ser preenchido não por Deus, Jesus, Jeová, Maomé, ou Marc Jacobs, mas por uma outra força espiritual, ligada ao mito e ao id: o , uma espécie de "alma mater" existencial, que dá vida e alma aos elementos do universo - sejam pessoas, lugares, ou até mesmo objetos. Assim, ao invés do "Größten Gesicht prinzips", o interlocutor pode se utilizar do Swing (e suas variantes) para dar sentido e significado ao vazio de sua vida.

Afinal, segundo Ellington, " doo wop doo-wah".

_____
1. NIETZCHE, Friedrich. "Ich Habe den Größten Gesicht Mutterbumser in der Welt". Röchen bei Lützen, 1897.

2. ELLINGTON, Duke & MILLS, Irving. "It Don´t Mean A Thing... if it ain´t got that swing." Nova York, All That Press, 1932.

* Conhecido no vulgo como Duke Ellington.

17 de dezembro de 2007

I wake to sleep, and take my waking slow.
I feel my fate in what I cannot fear.
I learn by going where I have to go.

We think by feeling. What is there to know?
I hear my being dance from ear to ear.
I wake to sleep, and take my waking slow.
And learn by going where I have to go.

from "The Waking" by Theodore Roethke

8 de dezembro de 2007

O molibdênio é um dos metais-pesados mais carismáticos da tabela periódica.

Livros não salvam pessoas.

Jesus salva pessoas.

Mas quem é que precisa ser salvo?

5 de dezembro de 2007

Poema em linha torta

(apud Fernando "Haroldinho" Pessoa)

Nunca encontro ninguém que tenha feito uma cagada.
Todo mundo que eu conheço é sempre o fodão em tudo.

E eu, que sendo alto, sou baixo, e tantas vezes nojento, tantas vezes escroto,
irresponsavelmente relapso, indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho publicamente enfiado os pés nas jacas da sociedade,
Que tenho sido um babaca, mesquinho, infantil e ridículo,
Que tenho sofrido calado
e quando não estou calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às pessoas mais deprimentes,
Eu, que tenho sido assediado pelos homens e mulheres do limbo,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, bebendo dinheiro até não sobrar nada,
Eu, que, pressentindo a briga, me escondo atrás do bar com o copo na mão
como num filme do Oscarito;
Eu, que tenho ignorado as pequenas coisas da vida,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca desmaiou sobre o próprio vômito.
Nunca foi expulso, nunca foi demitido, chutado, chifrado, roubado, enganado.
Nunca cagou sangue, nunca desmaiou, ou caiu, se cortou, se rasgou, se fudeu.
Nunca foi senão príncipe - e nunca gauches - na vida...

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma covardia!
Não! São todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que já foi escroto?

Estou farto de fotologgers!
Posando e sorrindo para a posteridade virtual.
Fazendo o V com os dedinhos que aprenderam com a Giselle.

Onde é que há gente normal nesse mundo?
Quer dizer então que só eu sou errado sobre a Terra?

Orgulho não é veneno, e é gostoso de engolir.
O importante é que emoções eu bebi.

29 de novembro de 2007

Um velho clássico do garage rock dos anos 1960. Postei aqui porque foi MUITO difícil achar essa letra, no Google não tem nem fudendo. Vou colocar aqui para facilitar as coisas para o próximo coitado que procurar ela.

Out of Our Tree - The Wailers


Out, runnin' around
Seein' every crazy sight
A lady in a evenin' gown
Made from a paper kite
We asked her why
She wore such a crazy gown
She said if ya wanna fly
Ya gotta get off the ground

Don't know what we hear an' see
Hey, we gotta be...
Out of our tree
Out of our tree
Out of our tree

Ran a little ways more
And we happened to meet
A man building a door
Right in the middle of the street
We asked him why
He did such a crazy thing
He said if ya wanna get by
The doorbell ya hafta ring

Don't know what we hear an' see
Hey, we gotta be...
Out of our tree
Out of our tree
Out of our tree

Then we saw a cat
Diggin' through a garbage can
Out jumped a rat
A dog an' the garbage man
Now everything we see
We don't try to figure out
We know that it just can't be
But it's happenin' without a doubt

Don't know what we hear an' see
Hey, we gotta be...
Out of our tree
Out of our tree
Out of our tree