Mostrando postagens com marcador folha de são paulo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador folha de são paulo. Mostrar todas as postagens

15 de abril de 2008

Mídia, Política & Outras Besteiras.



Eu não sei quem defenestrou Isabella, e nem por que, mas o isso não faz a menor diferença. Todos os dias crianças caem de janelas. Algumas morrem, outras não. É triste? Claro. Mas que relevância isso tem a ponto de se tornar o único assunto dos jornais, especialmente na Rede Globo?

Uma única menina morreu. Ela não era nem famosa. Ela foi feita famosa porque algum editor "jornalístico" decidiu que "a opinião pública" queria saber quem a matou. "A opinião pública" e "a democracia" são os argumentos preferidos das pessoas mal-intencionadas que precisam justificar alguma ação totalmente arbitrária e sem sentido - como, por exemplo, a invasão do Iraque.

Os pais da tal Isabella estão sendo tratados como monstros assassinos, sem que exista nenhuma prova contra eles. O CSI foi lá, brincou de luminol, e a Rede Globo ficou um tempão mostrando como isso funciona. Depois eles ficaram discutindo, ao vivo, no ar, o que a madrasta da Isabella ia almoçar na delegacia. Se o suco era de caju ou de laranja. Enquanto isso, já tinha gente na rua com foto-camisa da Isabella, gritando "Justiça! Justiça!". Justiça, que nesse caso, é um apelido para "vingança". Ou quem sabe para "sublimação da frustração sexual através do derramamento de sangue inocente". Mas isso é muito comprido para gritar na rua.

Enquanto todo mundo discute se foi o pai ou não foi o pai, quais foram os métodos da polícia, e outras amenidades irrelevantes, o assunto real está sendo ignorado: por que será que a Globo passa tanto tempo falando sobre esse assunto? Será que não tem nada mais importante acontecendo no mundo? Ou no Brasil mesmo? Vocês gostam de criancinhas mortas? Por que não falam das do Iraque? Do Tibete? Da Paraíba? E o caso da Escola Base? Aquele, em que todo mundo queria comer o cu dos donos da escolinha porque pensaram que eles tinham feito a mesma coisa, e quando provaram que era tudo mentira todo mundo ficou quietinho e abafou o caso... lembra? E todos os outros casos onde a mídia se aliou à "opinião pública" (o combustível do fascismo) para julgar e condenar pessoas antes que a justiça e a polícia o fizessem? Quem é que vai depois pedir desculpas, se retratar, pagar indenizações? Já notaram quantas perguntas eu fiz nesse parágrafo?

Faço perguntas porque as respostas são óbvias. A mídia não informa nada. O papel da imprensa não é dizer a verdade. A televisão, o jornal impresso, a revista, tudo isso são empresas. E no sistema capitalista, a única função social de uma empresa é gerar lucro. Simples assim. O Estado de São Paulo não tem obrigação nenhuma de ser correto. O Jornal Nacional da Globo não tem pretensão nenhuma em dizer a verdade ou investigar o que é "certo" e "justo". Eles só querem ganhar dinheiro, e ponto final.

Isso esbarra na briga jornalistas versus blogueiros. Se formos apontar uma diferença entre as duas categorias, seria o fato dos jornalistas serem profissionais da informação, e pagos por isso. Eles têm patrão, anunciantes, linha editorial para seguir. Os blogueiros não. Eles postam porque querem, e por isso podem falar o que pensam. Se isso é bom ou ruim? Depende. Mas uma coisa é fato: a tão-falada "monetização de blogs" é a diferença entre opinião e informação livres e a lenta, gradual e silenciosa corrupção das opiniões.

O calejado Luis Nassif fez um post em seu blog comentando sua decepção ao descobrir que os assessores da Soninha teriam entrado no esquema da Veja, mudando radicalmente de opinião sobre o caso do COC. O post traz expressões como "o último ataque partiu de quem eu menos esperava", "confesso que não entendi nada" e "é uma pena", mostrando que mesmo os mais experientes analistas políticos do Brasil ainda conseguem se chocar com certas coisas. Não tenho nada pessoal contra a Soninha, mas façamos uma rápida revisão da carreira dela: começou como apresentadora da MTV-Abril-Viacom, depois foi para a Sportv-Globo, foi eleita vereadora pela cidade de São Paulo, e agora está no canal GNT-Globo. E mesmo assim todo mundo pensa nela como uma pessoa diferente, que está acima de "tudo isso que está aí". Por que?

Essa separação entre político bondoso e político ladrão, entre mídia boa e mídia má, é uma visão muito limitada do problema. Vamos imaginar que exista um político perfeito segundo o imaginário popular: honesto, trabalhador, que não se deixa curvar por nada, incorruptível, temente a Deus (estamos falando do imaginário popular, lembra?), que luta todos os dias pelos direitos do trabalhador brasileiro.

Vamos imaginar agora que esse nosso querido amigo foi eleito senador. Vocês realmente acham que ele ia fazer alguma coisa? Ele é apenas um mero senador perdido num oceano de pessoas. E se vocês acham que eu estoue exagerando, vejamos um exemplo mais radical ainda, diretamente da vida real: quando o Lula foi eleito, as pessoas choravam de emoção nas ruas. "Finalmente! Um de nós chegou ao poder! Agora as coisas vão mudar!"

Como se ele fosse alguma espécie de Deus que controla os eventos do universo. Mas ele não é. Ele diz que ligou pro Bush e disse "ô Bush", mas é tudo mentira. Ele só faz discursos. E discursos não mudam nada. Ele não pode decidir o futuro do Brasil, ele não pode controlar a economia global, ele não pode curar o câncer das criancinhas. O Lula não pode evitar que a Isabella seja espancada e morta.

O mesmo vale para o Chavez, para o Uribe, para o Sarkozi e para o Bush. O mesmo vale para o Obama, a Hillary, e qualquer outro político que apareça no cenário dizendo que vai fazer e acontecer e que mudanças vão elevar o nível da Humanidade, que o futuro vai ser melhor. Isso tudo é conversa para boi dormir. Ninguém consegue controlar o destino da Humanidade. Ou de um país. Ou de uma única pessoa que seja.

Agora, se a mídia não pode fazer nada, se os políticos não podem fazer nada, e a Igreja obviamente não vai fazer nada... quem é então que pode? Como é que a gente pode ter esperança nesse mundo louco, se não temos nenhum super-herói para nos salvar?



Quando a gente é criança, não pode fazer nada. Os pais não deixam a gente comer biscoito, não deixam a gente sair sozinho na rua, não deixam a gente ir no parquinho nem dormir na casa dos amigos. Aí a gente cresce, vira adulto, e pode fazer o que quiser. Mas a gente não come biscoito, não sai sozinho na rua, não brinca no parquinho, não dorme na casa dos amiguinhos. A gente fica em casa vendo televisão, comendo lasanha congelada Sadia, reclamando dos políticos e esperando pra ver quem vai no Jô Soares.

Acontece que nós, os adultos... nós podemos fazer coisas.

Nós podemos mudar o mundo anonimamente. Nós não precisamos de líderes. Quem é o dono dos Médicos Sem Fronteira? Quem é o criador do Firefox? Quem é que manda na Wikipedia? Não importa: são apenas grupos de pessoas comuns que se juntaram para fazer uma coisa em que eles acreditam.

O mundo da arte, hoje em dia, é um pouco assim também. Acabou a era dos grandes artistas individuais: a arte se pulverizou pelo mundo, pelas ruas, nas paredes, virou brinquedo e website e adesivo e camiseta e não importa mais quem fez o que, o que importa é se as coisas são legais ou não.

A internet é a ferramenta mais poderosa do nosso tempo, e permite que grupos de pessoas comuns se unam em torno de objetivos comuns. Se dá certo ou não, depende. Mas o importante é que a gente pode tentar. Não depende da MTV nem do Google nem do Lula. Só depende da gente mesmo. É por isso que a gente tem medo. Mas é por isso que a gente tem que tentar.

A tragédia nossa de cada dia!

Antes de falar eu mesmo sobre o "caso Isabella", vou reproduzir aqui um texto publicado na Folha de S. Paulo com uma reflexão sobre o assunto. O meu comentário eu vou fazer na forma do já tradicional negrito nas palavras. Vamos a ele:

CASO ISABELLA: TODO MUNDO DESCONFIA DE SI MESMO
por Jorge Forbes

Quem matou Isabella? Essa pergunta atravessou o país, na semana passada, em todas as casas, em todos os cantos. Quem pode matar uma menina linda de cinco anos, sorridente, gaiata, livre no corpo e no olhar que olha a câmera de frente? Quem?

Matar uma menina como Isabella é ferir a última das garantias de nossa vida social. Há pouco tempo ninguém roubava uma igreja, o ladrão teria medo da ira dos céus; também não se batia carteira de velhinho nem bolsa de velhinha; seria ferir o código da malandragem; não se batia em mulher. Imagine! Isso passou, a sociedade foi ficando cada vez mais acuada, amedrontada, escondida em carros esfumaçados e blindados, fechada em prédios cheios de alarmes, como o de Isabella. Oh, "London, London", que triste canção. Tanta proteção para nada, ela morreu.

Quando um crime é cometido por uma razão aparente: fome, vingança, sobrevivência, de certa forma se compreende, embora não se aceite nem se dê razão. Crimes desse tipo são bem classificados. Neles, a diferença do criminoso com o homem comum e sua situação de vida são, em grande parte, patentes.

Agora, quando a situação de um crime reproduz o cotidiano, todo mundo passa a desconfiar de si mesmo.

Poderia ter acontecido com minha filha, ou, pior, será que eu poderia cometer uma atrocidade dessas, eu que não tenho nenhuma história pregressa que me leve a desconfiar de mim mesmo? Pode sim, um criminoso não é criminoso até que cometa um crime, caso contrário, vamos começar a inventar disposições genéticas perigosíssimas e construir berçários-cadeia. ''Vá buscar o bebê da cela três para mamar.''

No caso de Isabella, ainda tem o detalhe da madrasta. Quantas mulheres recém-divorciadas encheram-se de razão nesses dias para proibir o ex-marido de passar o fim de semana com o filho e a nova namorada?

Ninguém, fantasiosamente, gosta de madrasta nem de sogra. Ninguém gosta de intermediários de amor, de algo ou de alguém que lembre que entre o amante e a amada existe uma barreira. Pobres madrastas, pobres sogras. Elas levam a culpa de algo que está na essência do humano: a falta de garantia dos nossos laços afetivos.

A cena da família unida no supermercado de sábado, tranqüila, carinhosa, de chinelão, fazendo do carrinho de compras uma Ferrari para as crianças, não poderia servir de melhor ilustração para um cartão-postal de felicidade. Qual o quê. Poucas horas depois, o trágico, o sem solução. Voltamos à cena, uma, duas, várias vezes; ela bateu o recorde de audiência dos sites. Tentamos detectar o espectro da desgraça rondando aquele passeio na escada rolante, buscamos avidamente algum sinal que nos proteja, que não faça com que fiquemos todos paranóicos em cada momento feliz.

Mal, oh mal, onde está você? Será que você está na ausência das declarações do pai? Ou será que se disfarça na beleza jovem da madrasta sem lágrimas; ou não, vai ver que você se intromete na marreta do pedreiro, aquele Pedro que faz casa para o outro bem morar, enquanto ele mora na marmita, sim, vai ver que foi ele.

Cada um faz uma hipótese, sempre baseada na sua visão de mundo e na maneira pela qual reagiria em uma situação dessas. Rapidamente os falastrões investigadores das razões alheias se dão conta de que as emoções humanas são bem mais complexas que o bom senso. Pode um pai não chorar no momento seguinte da morte de sua filha? Claro que pode, quem nunca teve um branco na vida, um impacto tão grande que o mundo vira paisagem branca? O não-choro, por si só, não incrimina o pai, como, ao contrário, o choro de Suzane Richthofen, no enterro de seus pais, não a inocentava, como não a inocentou.

Freud aconselhava a, se invocarmos os demônios, que ao menos conversemos com eles, antes de despachá-los de volta. Os demônios estão aí; como é de praxe, eles aparecem na morte de um anjo. Daqui a pouco vamos mandá-los de volta às suas profundezas, as quais gostamos de ignorar. O momento da verdade dura é agora, que melhor será se durar mais que um só momento. Vamos despachar os demônios assim que ficar confirmado, jurado e sacramentado o nome do assassino. Todos respirarão aliviados ao saber. Ufa! Não fui eu. Foi ele. Só podia ter sido ele, como eu não pude entender isso antes? E a festa voltará.

Não há garantia para o frágil laço social humano, dizia. Bichos são sempre iguais. Homens nem sempre são homens, não há um piloto automático de humanidade. Esse é o motivo de viver no princípio de responsabilidade que não ausenta ninguém da existência coletiva. Somos responsáveis por Isabella? Sim, é o que isso quer dizer. Uma responsabilidade jurídica condenará o criminoso, mas o princípio ético da responsabilidade humana, diferente da estritamente penal, obrigará todos nós a prosseguirmos com esta marca em nossas vidas. Seu nome? Isabella, uma ''isola bella'', uma ilha bela.

Jorge Forbes, 56, psicanalista, é presidente do IPLA (Instituto da Psicanálise Lacaniana) e diretor da Clínica de Psicanálise do Centro de Estudos do Genoma Humano da USP.